Adepto sem reforma

Maria Amélia Morais tem 74 anos e não falha um jogo do SC Braga. Por onde quer que passe há alguém que chama por ela. D. Mélinha, como é carinhosamente chamada pelos bracarenses, responde com sorrisos e beijinhos. Afinal, é isto que lhe aquece a alma.




Amélia chega sorridente, vestida a rigor: vermelho e branco. Na camisola do Braga, oferecida por um jogador no dia do seu aniversário, coseu a fotografia de "um grande homem" - António Salvador, actual presidente do clube. "A gente tem muita vaidade nele", assume, orgulhosa.


Nascida e criada em Braga, Amélia Morais cedo começou a apoiar o SC Braga. Do primeiro jogo, aos onze anos, pouco se lembra. Mas sabe que foi nesse dia que a paixão ao clube da sua terra nasceu e aumentou com o passar dos anos. 


Casou cedo e teve a sorte de partilhar com o marido este amor ao emblema da cidade e, domingo a domingo, viajavam pelos estádios de Portugal. Por essa altura, era a sócia 1114, o que muito a enche de orgulho.Em 1986, o marido faleceu. Juntos partilharam casa, vida, trabalho e emoções. Esta perda foi para Amélia tão grande que demorou dois anos a reerguer-se. Durante esse tempo, até o Braga foi esquecido e as cotas em atraso foram-se acumulando. Quando decidiu voltar ao velho amor, já muitos sócios tinham ocupado o seu lugar. Teve, então, de criar novo cartão e, desde essa altura, é a sócia número seis mil. Além disso, mudou também de profissão. Amélia, trabalhadora têxtil na área dos calçados desde sempre, soube que não conseguiria dar conta do recado sozinha e decidiu, então, vender as máquinas e tornar-se agente imobiliária. Garante, hoje, que foi essa mudança que lhe permitiu ter uma vida mais desafogada. E é graças a essa escolha que hoje pode viajar sempre com o seu clube.


Aos 75 anos, sem marido e sem filhos, garante que é o clube que lhe anima a vida. A irmã, Olívia, confirma: "desde muito nova que ela ama muito o Sporting Clube de Braga". Dos jogos, o que mais gosta é da festa envolvente, "é ver os adeptos puxar pela equipa". Não falha um jogo, "nem que esteja doente e com febre", assegura. Não gosta de violência nem dos insultos que abundam nos jogos, mas garante que se sabe defender.


A família, afirma a irmã, acredita que Amélia não troca esta paixão por nada deste mundo e, afinal, até partilham este amor à camisola. "Acompanho sempre a minha irmã, excepto nas deslocações ao estrangeiro, mas não há ninguém como ela", explica. Amélia afirma sem nostalgias que já pensou na morte e que não tem medo dela. "Mas sabe que o Braga ficará mais pobre, nesse dia?", perguntamos. Prática, como sempre, garante que não, que haverá outros a ocuparem-lhe o lugar.




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