A voz da claque

Rosa Maria Pliteiro, fundadora da claque feminina do Vitória de Guimarães

"Em primeiro lugar o Vitória e só depois os meus filhos,
os meus netos e o meu marido"

É das vozes mais marcantes nos jogos do Vitória de Guimarães. Tem 58 anos, 37 dos quais enquanto sócia do clube da sua terra. A fundadora d' "As mulheres do Vitória" fala sobre o amor à camisola, ao clube e à cidade.

Quando começou a ir ao futebol?
Eu acho que vou ao futebol desde pequenina. O meu pai meteu-me esse vício Tenho filhos, noras e netos e todos fazem o que eu faço. Tenho um neto com seis anos e há seis anos que é sócio. Tenho um filho com 36, há 36 anos que é sócio. Tenho outro com 32 e há 32 anos que é sócio. E tenho ainda outro com 28 e há 28 anos que é sócio. Em minha casa se não houver dinheiro, não há. Mas para o Vitória tem de haver sempre.

O que levou à criação desta claque feminina?
Foi uma brincadeira: simplesmente montámos a claque quando o Vitória desceu de divisão. Depois nós, as mulheres cotas, íamos para todo o lado onde o Vitória ia. Até que se deu a ideia de formarmos esta claque: pouquinhas mas todas boas, muito organizadas.
Este ano, infelizmente, não posso ir sempre fora porque tenho uma irmã muito doente. Mas no dia 22 [22 de Maio de 2010, Final da Taça de Portugal. FCPxVSC  Estádio do Jamor], lá estarei!

Gostam da designação claque?
Nós somos um grupo de amigas e vitorianas, mais nada.

Como reagiram os amigos e sócios quando vocês apareceram?
Ficaram muito felizes! Não somos maltratadas por ninguém.
Até porque quando não vamos e eu passo por alguém depois do jogo, dizem-me: não foram ver o Vitória e foi por isso que perdemos!. Eles têm-nos respeito, talvez por nós sermos quase como mãe deles.

Acha que as mulheres fazem falta ao futebol?
As mulheres? Sempre. Nós fazemos muito mais barulho. Os homens são muito mais envergonhados. Eles fazem barulho é quando já estão com um copito a mais. Quando estão direitinhos eles nem falam nem nada. Começam a cantar quando nós cantamos.

E a claque feminina faz a diferença nos jogos?
Eu acho que sim. Nós este ano não fomos a 80% dos jogos e o Vitória perdeu sempre, por isso nós fazemos falta ao Vitória! Quando íamos, ganhávamos sempre. Era raro irmos e voltarmos  tristes Mas também, nem que perdesse: nós queríamos era ir ver o Vitória. Não somos daqueles que tratam mal os jogadores, que tratam mal o treinador, que tratam mal a direcção. Uma coisa é certa, eu gosto é do meu Vitória! Os jogadores, treinadores, presidênciaeles vão e não voltam mais. Mas nós ficamos sempre.

O que pensa a família desta paixão?
Nem que me dissessem alguma coisa, eu era contra eles. Eu sou a favor da bola e do Vitória. Pelo meu Vitorinha eu sou contra os meus filhos, o meu marido, a minha mãe e tudo. Mas eles não se opõem a nada.
Em primeiro lugar o Vitória e só depois os meus filhos, os meus netos e o meu marido. Em primeiro lugar é sempre o Vitorinha! Não tenho vício de nada mas o Vitorinha, para mim, é o maior vício.

E o marido, o que acha desta paixão, provavelmente muito superior à dele?
Muito superior! O meu marido gosta, mas é benfiquista. E se não gostasse eu também não me importava nada, o que eu quero é ir ver o Vitória. Primeiro é sempre o Vitória!
Tenho duas noras benfiquistas e enquanto não as meti a sócias, não descansei. A primeira prenda que lhes dei foi o cartão de sócia.
As minhas amigas da claque dizem mesmo: para o Vitória não pode haver crise. Se não houver dinheiro para a água e para a luz, não interessa mas para o Vitorinha tem de haver sempre dinheirinho.

Costumam reunir-se antes dos jogos?
Sim. Encontramo-nos sempre aqui [Pastelaria Ribela]. Este ano não tem sido fácil, por causa da minha irmã, e encontramo-nos menos. Umas estão de um lado, outras estão do outro. Mas quando é fora e precisamos de luta, vamos todas juntas.
Chegadas ao estádio, estamos todo o jogo de pé. O nosso sítio está reservado e já ninguém vai para lá, está guardado só para nós. Há um ano ou dois, encontrávamo-nos sempre aqui. E agora também, às vezes. Mas em vez de irmos 20 ou 30, vamos só 5 ou 6.

Costumam encontrar-se noutras ocasiões?
Sempre. Eu acho que nós não somos amigas, somos irmãs.

O clube apoia-vos de alguma forma?
Não. Só tenho meia dúzia de bilhetes que a direcção sempre me deu, quando os jogos são cá, para eu distribuir por aquelas amigas mais pobres e que não são sócias. Mas nas deslocações fora, nós pagamos o autocarro.

De onde surgiram essas capas que levam aos jogos e vos caracterizam?
Foi quando o Vitória desceu à segunda divisão, uma senhora da claque, a D. Rufina, que tinha uma fábrica, decidiu oferecer a todas as mulheres esta capa, um chapéu e um cachecol.

A claque é para manter?
Sim, sim, sim. Claro!

Onde arranja vontade?
Ai, é um Vallium 100 o futebol para mim. Eu chego lá, digo umas asneiras e passa tudo. Venho embora aliviada. Aquilo dá-nos muita força, mas muita força mesmo.

O que pensa das claques?
O meu Vitória sem ter nenhuma claque deve ser a coisa mais triste do mundo! As claques incentivam os jogadores e depois, o outro povo que está lá, que não canta nem grita nem faz nada, ouve a claque a gritar e junta-se. É uma pena haver certa gente intrometida nas claques, seja de que sítio for. Há sempre meia dúzia deles que não deviam estar. Juntam-se e há sempre aqueles barulhos que não deve haver, o que é muito feio. Na claque dos homens há muita maldade. Não são todos, mas alguns. Eles falam mal, eles pegam-se ao barulho, eles só fazem asneiras Nós, mulheres, não. É mais uma brincadeira. Cantamos, dançamos, pinchamos Sempre sem maldade nenhuma. Mas os homens não, é mais complicado.

Mudou o espírito do público, com os anos?
Sim. Dantes havia claques, havia, mas não é como agora. Agora toda a gente gosta do Vitória. Nem que tenham uma dorzinha de cotovelo por um Porto ou um Benfica, o Vitória é o Vitória. E agora há muito mais juventude e mulheres.


Veja o vídeo desta entrevista: